Twitter do Oscar Guedes

Hotel Emmy - Fiè Allo Sciliar -  Bolzano - Itália - Europa

Jornal Página Revista - Bahia

Club Med Trancoso - Porto Seguro - Bahia - Brasil


O publicitário Oscar Guedes nem sonhava em morar em Santo Inácio, quando guardou o caderno Turismo do Jornal A Tarde, de 5 de abril de 2000, no qual as Serras do Assuruá foram a manchete principal. Coincidência ou ironia do destino, "as pedras se encontraram e encaixaram". Confira a seguir a matéria guardada há 6 anos:

Entre as planícies alagadiças do Rio São Francisco e o Baixio de Irecê ergue-se um conjunto de serras entrecortadas por vales, rios e cachoeiras que enche os olhos até dos viajantes mais acostumados com a beleza da Chapada Diamantina. São as serras do Assuruá, na extremidade oeste da Chapada, em Gentio do Ouro. Desde o final do século passado, o município exporta para o resto do mundo cristais de rocha nas mais variadas formas e tamanhos, puros e incrustados.

Gentio do Ouro e os pequenos povoados viviam, até o ano passado, praticamente isolados. O único acesso ao município era por uma estrada de chão que consumia, em média, oito horas de viagem para vencer os 86 quilômetros até Xique-Xique. Com a rodovia estadual inaugurada este ano, o mesmo percurso pode ser feito em cerca de 50 minutos, dando fácil acesso à história e à beleza de povoados como Gameleira do Assuru á e Santo Inácio, que nasceram com o ciclo da mineração e guardam histórias e lendas dos tempos áureos do garimpo.

O diamante e o ouro fizeram história e até hoje são garimpados nas serras. Mas é a beleza dos povoados nos arredores de Gentio do Ouro que pode se tornar a maior fonte de riqueza do município, que até o final da década passada não tinha sequer luz elétrica e vivia praticamente isolado.

Mais de uma dezena de cachoeiras caem em cânions habitados antes da chegada dos colonizadores por índios, que deixaram suas marcas em pinturas rupestres vistas por toda a parte. Águas frias e cristalinas despejadas de quedas de até 20 metros correm para a Lagoa de Itaparica, maior lagoa marginal do Rio São Francisco e, desde 1997, decretada Área de Proteção Ambiental (APA).

A fauna da região ainda abriga, escondidos na serra, veados, onças-pintadas e mocós. O viajante pode observar pássaros dos mais variados tamanhos e cores, numa vegetação de zona fronteiriça entre o cerrado e a caatinga, que oferece também uma grande diversidade de frutas como o puçá, umbu, murici, ingá, acici, caju, quipá, cascudo, mangaba, ratinha e cambuí.

Longevidade, atribuída ao clima, à qualidade da água e à variedade de frutas e alimentos, é também um traço dos habitantes do lugar, que se dizem serranos, em contraposição aos beiradeiros, designação dada aos moradores da margem do São Francisco. "Não existe panorama mais bonito do que este em todo o Brasil", garante Salustiano José de Santana, 96 anos, 20 filhos, garimpeiro e antigo exportador de pedras.

Seu Salu, como é conhecido, mora em Santo Inácio, vilarejo de apenas duas praças e meia-dúzia de ruas, cercado de pedras e cravado no pé da serra. Ele ainda equilibra no ar com uma mão uma balança de precisão e, com absoluto controle, usa a outra mão para escolher pepitas de carbonado (variedade de diamante utilizado na industria como abrasivo) com uma pinça para distribuí-las cuidadosamente nas duas conchas, numa demonstração do funcionamento da peça, fundamental para o seu oficio, exercido por mais de 60 anos.

O panorama a que se refere seu Salu são as serras que ganham contornos variados, com grandes blocos quebrados em pedaços e esculpidos pelo tempo, equilibrados um sobre os outros, formando figuras que alimentam lendas. Em volta da vila, as pedras tomam nome de acordo com a forma, com Barca, Peru, Mulher, Teço-Teco, Coruja, Passarinho, Crucifixo e Camelo. Mais distantes estão os morros do Peito, do Palácio, do Gato, do Pão-de-ló e do Capão, numa sucessão de picos e morros com altitude de até 700 metros.

Santo Inácio, que já foi sede municipal entre 1938 e 1956, é um lugar onde as pessoas cultivam o habito de sentar nas calçadas para conversar no fim de tarde. As chaves permanecem a maior parte do tempo do lado de fora da porta da rua para facilitar o acesso de quem chega, raramente um forasteiro.

A oito quilômetros de Santo Inácio, perto da estrada Xique-Xique-Barra, fica o Encantado, um cânion com altura aproximada de 20 metros. Na parte superior, a água percorre vários caldeirões que formam uma espécie de jardim de pedras, entrecortado por uma vegetação variada, com palmeiras, árvores e plantas aquáticas. Nas tocas, as pinturas rupestres com a representação de bichos e desenhos geométricos revelam que o lugar já era habitado antes da chegada dos colonizadores.

Na parte inferior da cachoeira, o mergulho no poço de água cristalina por baixo da cortina de água dá acesso a um salão. Segundo a lenda, ali mora a Rainha das Águas, protetora dos peixes do Rio São Francisco, especialmente o surubim-de-cabelo, considerado o mais nobre. Os pescadores enchiam as canoas de peixe e subiam o riacho tocando búzios para agradecer a fartura.

Ainda mais inacessível, por causa da distancia, o Escorrega, no Rio Coquinhos, é uma sucessão de quedas d'água com cerca de 100 metros, com um trecho utilizado como tobogã de pedras. Bem mais preservado, o lugar tem acesso difícil, só possível a carros utilitários com tração. E preciso cerca de uma hora para vencer os 18 quilômetros de estrada de chão até a rodovia pavimentada, na altura do povoado de Gameleira do Assurua.

Além dessas duas cachoeiras mais conhecidas, o turista que dispuser de tempo e disposição pode encontrar dezenas de outras quedas-d'água, a exemplo do Riacho de Antonio Joaquim, de onde vem a água que abastece a cidade. No Riacho Folha Larga, o frei Luís, hoje bispo de Barra, construiu o Nazaré, uma espécie de santuário com abrigos rústicos cercados de plantas frutíferas, onde a população de região se reúne para retiros espirituais e encontro de jovens.

A professora Maria Aparecida Bessa está entre os moradores que se preocupam com a preservação das riquezas naturais da região. Já promoveu encontros para debater o meio ambiente, com a queima de estilingues pelas próprias crianças. Para ela, o trabalho marcou tanto que, na última visita do padre, a natureza dos pecados confessados chamou a atenção. "O padre disse só deu pecado ecológico".

Maria Aparecida reclama de presença mais efetiva do Ibama no município. Nesta época do ano, por exemplo, as pombas cariris interrompem a rota de migração para procriar na região. "São abatidas às centenas nos bebedouros por caçadores de tocaia", denuncia. Uma das aves mortas, segundo os próprios caçadores, trazia uma anilha com a identificação da Argentina.

Outra preocupação dos moradores são os rastros do turismo de fim de semana, proveniente das cidades vizinhas. São deixados no local latas de cerveja, copos e garrafa, além de pichações em tinta a óleo ao lado ou até cobrindo pinturas rupestres com nome de casais e datas recentes.

As serras de Gentio do Ouro foram alcançadas pelo Rio Verde, afluente do São Francisco, por caçadores de ouro, prata e esmeralda, mas relatórios ao imperador dom Pedro II na metade do século já falavam da abundancia de ouro, diamante e sal na região.

O município surgiu no povoado de Gameleira do Assuruá, onde, segundo a lenda, dois escravos encontraram as ruínas de um antigo engenho abandonado, provavelmente habitado pelos primeiros desbravadores. Foi a primeira sede do município, depois transferida para Santo Inácio e, em 1954, para Gentio do Ouro.

Seu Salu explica que o município viveu o seu auge entre 1918 e 1942, quando o carbonado atingiu preços até 10 vezes mais altos que o diamante. Ele próprio começou a vida com uma pedra de carbonado de sete grãos achada em 1918, que lhe rendeu seus primeiros 700 mil réis. "Era dinheiro que dava para comprar 100 cabeças de gado".

Até 1942, seu Salu vendeu sua produção e a de outros garimpeiros em Salvador. Gastava seis dias no lombo do burro até Miguel Calmon, e mais dois de trem até Salvador, onde se hospedava no Hotel Dois Irmãos, na Rua Chile, e vendia sua produção para compradores americanos ou para a empresa Barreto de Araújo. Com o fim da guerra, o carbonado caiu de preço e os cristais de rocha passaram a ser o principal produto das minas de Gentio do Ouro.

Os cristais de rocha são encontrados com facilidade pelo visitante em formas variadas. Cristalinos, coloridos, incrustados, brutos e lapidados, eles estão expostos em mercearias ou nas casas de compradores dos garimpeiros. De uns tempos para cá, tem sido grande a afluência de esotéricos, que acreditam na força do mineral para amplificar as energias e promover o equilíbrio espiritual.

Assim como o diamante, os cristais de rocha foram formados em grandes temperaturas no interior da crosta terrestre. Com a elevação da base do oceano que cobriu a região em eras remotas, os cristais surgiram a poucos metros do solo, por baixo do cascalho de rochas sedimentares. Desde o século passado, os cristais de rocha são retirados das serras com finalidades diversas, a depender da demanda internacional.

Em artigo sobre reservas estratégicas, o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, professor emérito da Universidade de Campinas (Unicamp), informou que os Estados Unidos mantém um estratégico estoque de cristais de rocha para usar como "sementes" na produção de quartzo cristalino artificial, porque o Brasil é o único pais que detém material dessa qualidade.

No Egito, foram achados lupas de cinco mil anos feitas em cristais de rocha. Os cristais são utilizados ainda hoje em instrumentos óticos e científicos, aparelho de transmissão e de receptor de radio e como polidor, em joalheria.

Adelino Alves de Almeida, 87 anos, morador de Gentio do Ouro, diz que no começo só eram valorizados os cristais puros, sem imperfeição. "De uns 10 anos para cá, começaram a dar valor os cristais de cabelo (incrustados) e os esverdeados, muito procurados, acho, para decoração". Comerciantes chineses vêm até o município comprar a produção diretamente dos garimpeiros, vendida a quilo, com preços a partir de R$10,00 o quilo.

As formas das pedras em volta da vila de Santo Inácio também alimentam lendas. O baixo relevo, semelhante à palma de um pé de criança, é conhecido como Pé de Menino Deus. O lugar está protegido por uma espécie de moldura de pedras colocadas em volta. "Dizem que esta marca é do tempo de quando o lajedo era mole e o Menino Jesus andou por aqui", explica seu Salu.

A forma de dois corpos simétricos deitados sobre a rocha é, de acordo com a lenda, o tumulo de irmãos gêmeos que brigavam por um grande diamante. Na luta, um deles foi picado por uma cascavel. Sem saber o motivo da morte e com remorsos, o segundo irmão se mata, ficando os dois, por castigo de Deus, marcados na pedra.

As marcas do diabo também estão presentes nas rochas. Nas proximidades, uma pequena saliência em forma quadrada ganhou o nome de Rapadura do Cão. Do lado se acumula um monte de pedras - elas foram juntadas por causa do costume dos moradores de sempre que passar pelo lugar atirar uma pedra, com obrigação de acertar a rapadura para esconjurar o demônio.

 

voltar ao topo

 
© 2005 - 2010 Site Eco Enigma - Seu Sexto Sentido. Todos os direitos reservados